AS ESTATUAS DOS FARAOS




ESTÁTUAS Assim como nós colocamos estátuas de nossos líderes em locais públicos, os antigos egípcios também ergueram imagens de seus reis e divindades em templos, santuários e tumbas. Muitas eram consideradas a incorporação dos deuses e provavelmente tomavam parte nos rituais religiosos. Frequentemente inscritas com hieróglifos, elas nos ajudam a compreender aspectos políticos e da religiosidade daquele povo. Algumas das estátuas dos faraós eram coloridas para imitar a vida e podiam apresentar olhos de cristal de rocha embutidos nas órbitas.

Quase sempre ensina Edward McNall Burns as figuras apresentam-se rígidas, com os braços cruzados sobre o peito ou estendidos aos lados do corpo, os olhos fitos em frente. Os semblantes mostram-se, em geral, impassíveis, não traindo qualquer emoção. Praticavam-se frequentemente, distorções anatômicas: o comprimento das coxas precisava ser aumentado, acentuadas as linhas retas dos ombros, ou então faziam-se todos os dedos das mãos de igual comprimento. Embora tais características fossem predominantes, às vezes eram desafiadas por artistas mais ousados que produziam, então, uma obra de maior destaque.

Que significado teriam para os egípcios a monumentalidade de suas estátuas e a deformidade que a elas imprimiam? O autor citado é quem nos explica: Sem dúvida, o tamanho colossal das estátuas dos faraós pretendia simbolizar sua força e a do estado que representavam. É significativo ter aumentado o tamanho dessas estátuas à medida que o império se expandia e que o governo se tornava mais absoluto. As convenções de rigidez e impassibilidade que dominavam as estátuas dos soberanos pretendiam expressar uma vida nacional estável e imune ao tempo. Ali estava uma nação que, de acordo com o ideal, não era abalada em seus fundamentos pelas mudanças incertas da sorte, mas permanecia firme e imperturbável. Os retratos de seus chefes, consequentemente, não podiam demonstrar ansiedade, medo ou triunfo, mas uma calma imperturbável através dos tempos. Do mesmo modo, a deformação anatômica pode ser interpretada como uma tentativa deliberada para exprimir algum ideal nacional. Certamente não há razão para se acreditar que fosse praticada por ignorância das leis de proporção ou por incapacidade de copiar as formas naturais. Muito possivelmente pretendiam negar a mortalidade. Julgava-se talvez que a existência eterna do povo dependia de serem seus líderes investidos de atributos que negassem sua morte como seres humanos comuns. O mais eloquente artifício adotado com esse fim era a representação do corpo do faraó com uma cabeça de deus, mas outros exemplos de retratos idealísticos tinham provavelmente o mesmo objetivo.

A função criadora que o rei exercia em virtude de seus encargos divinos e como sacerdote supremo precisava ser expressa na matéria e ser afirmada exteriormente aos olhos de todos. Nos retratos reais do Império Antigo (c. 2575 a 2134 a.C.), a natureza individual do rei-deus, de essência mortal, era relegada diante da pretensa eternidade do seu cargo. O que se desejava representar não era um ser humano enquanto rei, mas um deus enquanto rei, idealizado em uma juventude eterna. A idenfiticação do faraó com o divino era reivindicada mesmo após sua morte, quando o rei defunto, assimilado ao deus Osíris, passava a fazer parte do ciclo da renovação da realeza. Tais pretensões de continuar exercendo autoridade no além estavam firmemente inscritas nas estátuas reais dos templos funerários. As pirâmides e os túmulos monumentais dos antigos soberanos tinham como centro de culto suas imagens funerárias, despojadas de todos os caracteres efêmeros.

Mas a forma de representação que era tradicional no Império Antigo, durante o qual o componente humano do monarca deveria se anular diante da instituição que ele representava, acabou sendo ultrapassada no Império Médio (c. 2040 a 1640 a.C.). Nesse último período, a tomada de consciência da precariedade da existência humana, à qual o rei também estava sujeito, aumenta gradativamente e surge a necessidade de transpor figurativamente essa descoberta para todas as formas de representação na estatuária.

Em contrapartida, as estátuas reais dos santuários do Império Novo (c. 1550 a 1070 a.C.), erigidas em um cenário religioso renovado e destinadas a servir de propaganda, trazem de volta imagens idealizadas de uma realeza atemporal. A representação dos soberanos nessa época foi influenciada pela consciência de que o império egípcio excedia em muito suas fronteiras. Finalmente, os raméssidas erigiram por todo o país estátuas reais monumentais, como elementos propagandísticos da monarquia. Assim, aquilo que no Império Antigo eram imagens atemporais da instituição divina encarnada pelo rei também divino, tornou-se a expressão insuflada até o monumental das aspirações pessoais de poder, as quais reivindicavam a divinização atravé dos próprios retratos colossais.

A figura do alto desta página mostra estátuas de Ramsés II
na fachada do templo de Abu Simbel.


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