Quando sua majestade era um moço como Hórus, o jovem em Khemmis, sua beleza era como a do protetor de seu pai, ele se parecia com o próprio deus. O exército se regozijava por causa do amor a ele, aos filhos do rei e a todos os nobres. Então sua força transbordou e ele repetiu o circuito do seu poder como o filho de Nut.
Houve época na qual ele praticava arremesso de lança para seu próprio divertimento nos altiplanos do nomo menfita, em suas estradas do sul e do norte, onde ele arremessava dardos de bronze no alvo e caçava leões no vale das gazelas. Ele ia montado em sua carruagem de dois cavalos e estes eram mais rápidos do que o vento. Com ele iam dois de seus criados. Ninguém os reconhecia.
Então chegava a hora na qual ele concedia descanço aos seus criados. Ele se aproveitava disto para apresentar a Horemkhu, junto ao [templo de] Seker na cidade dos mortos, e para a deusa Rannu, uma oferenda das sementes das flores em seu apogeu [e para rezar à grande mãe Isis, a senhora da] muralha norte e a senhora da muralha sul, e para Sekhet de Xois, e para Seth. Por um grande encantamento repousa neste lugar desde o início dos tempos, até onde chegam as regiões dos senhores da Babilônia, a estrada sagrada dos deuses para o horizonte ocidental de On (Heliópolis), porque a forma da Esfinge é um retrato de Kheper-Ra, o grande deus que ali habita, o maior de todos os espíritos, o ser mais venerável que ali repousa. Para ele os habitantes de Menfis e de todas as aldeias da região elevam as mãos para rezar ante seu semblante e lhe presentear com ricas oferendas.
Num destes dias aconteceu, quando Tutmósis, o filho do rei, havia chegado de sua viagem por volta do meio-dia e se deitara para descansar na sombra desta grande divindade, que o sono tomou conta dele. Ele sonhou em seu repouso, no momento em que o sol estava no zênite, e lhe pareceu que este grande deus falava com ele com sua própria boca, da mesma maneira que um pai fala com seu filho, dizendo-lhe assim:
Olhe para mim, observe-me, meu filho Tutmósis. Eu sou teu pai, Harmakhis-Khepra-Rá-Atum. O império te será dado (....) e tu usarás a coroa branca e a coroa vermelha no trono do deus-terra Geb, o mais jovem (entre os deuses). O mundo será teu em sua extensão e em sua amplitude, até onde a luz do olho do senhor do universo brilha. Abundância e riqueza serão tuas; o melhor do interior da terra e ricos tributos de todas as nações; longos anos te serão concedidos como tempo de vida. Meu semblante é afável contigo e meu coração te abraça; [eu te darei] o melhor de todas as coisas.
Minha condição é como a de alguém que está doente, todos os meus membros estão sendo arruinados. A areia da região na qual levo minha existência, me cobriu. Prometa-me que farás o que eu desejo em meu coração; então eu ficarei sabendo se tu és meu filho, meu ajudante. Vá em frente e deixe me unir contigo. Eu sou. . .
Depois disto [Tutmósis despertou e repetiu todo este discurso] e entendeu [o significado] das palavras do deus e as depositou em seu coração, dizendo para si mesmo:
Eu vejo como no templo da cidade os moradores honram este deus com presentes sacrificatórios [sem pensarem em livrar da areia o trabalho do rei] Khaf-Ra, a estátua que foi feita a Atum-Harmakhis.