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TUTANKHAMON COMO OSIRIS A múmia de Tutankhamon (c. 1333 a 1323 a.C.) apresenta estranhas características que têm sido explicadas frequentemente pelo fato dele ter sido enterrado às pressas. A egiptóloga Salima Ikram, especialista em múmias e catedrática da American University do Cairo, realizou estudos em 2013 e sugeriu que tais características inusitadas foram tentativas deliberadas de tornar aquele faraó semelhante a Osíris. A primeira pista aparece nas pinturas da parede norte da tumba, na qual o rei falecido é mostrado como Osiris. Nenhuma outra tumba do Vale dos Reis mostra um faraó desta forma. Nas outras tumbas os faraós estão sendo abraçados por Osíris ou fazendo oferendas a ele.

Resinas escuras inundaram o caixão e foram aplicadas no cadáver e derramadas duas vezes sobre o crânio depois que o cérebro foi removido. Talvez elas tenham sido tãoTUTANKHAMON ENEGRECIDO entusiasticamente aplicadas para que houvesse certeza de que o faraó parecesse completamente preto. O resultado foi essa múmia totalmente enegrecida que vemos na foto. Osiris é frequentemente mostrado com a carne negra, evocando o rico solo de campos cultivados ao longo do Nilo e enfatizando a associação do deus com fertilidade e renascimento. A cobertura de líquido fez com que a pele do faraó se assemelhasse à pele preta de Osíris.

O procedimento também foi fora do comum na medida em que o coração do faraó foi removido. Ao contrário da maioria das múmias, a do faraó não tinha um coração nem seu substituto habitual, o escaravelho do coração, no lugar. Este órgão era um componente chave para a bem-sucedida ressurreição do corpo. Sua falta não foi o resultado de um roubo, mas é uma alusão ao mito egípcio segundo o qual Seth enterrou o coração do irmão.

Howard Carter, o arqueólogo que descobriu o túmulo de Tutankhamon e catalogou seu conteúdos, descreveu "toalhas de linho e ataduras" enroladas na cabeça real. Ele sugeriu que poderiam representar a alta coroa branca cônica de Osiris. Muitas múmias reais desse período têm os braços cruzados sobre o peito. Mas Tutankhamon tinha os braços sobre a cintura, numa posição semelhante a dos braços de Osiris que tem os cotovelos se sobressaindo para além do corpo. A incisão para retirada dos órgãos internos era normalmente feita na lateral do abdômen. No caso deste faraó ela é bem maior, excepcionalmente grande, e corre diagonalmente pelo abdômen do quadril até o umbigo. Ikram suspeita que este corte foi criado como outra homenagem a Osíris, o qual foi cortado em pedaços por Seth e também remete à selvageria deste último.

Quando Carter removeu os panos que cobriam a múmia, descobriu que o pênis estava parado em um ângulo de quase 90 graus. Ikram acha que isso foi feito deliberadamente. Ou seja, os homens que embalsamaram Tutankhamon arrumaram o pênis para lhe dar a aparência de uma ereção, evocando a fertilidade de Osiris e simbolizando os poderes de regeneração da divindade. Até hoje em dia nenhuma outra múmia foi encontrada mumificada com o pênis ereto. Parece que havia bastante material pegajoso em torno da base do órgão para que ele ficasse ereto. Em outras palavras, os embalsamadores podem ter usado algum tipo de cola para posicionar o pênis naquela posição. Para ver foto do membro mumificado clique aqui e escolha a imagem P0817.

E o que tudo isso significa? Transformar o menino rei em Osíris pode ter sido uma tentativa de combater a revolução religiosa iniciada por Akhenaton. Esse faraó virou a religião egípicia de cabeça para baixo com a introdução do seu deus Aton. Quando Tutankhamon subiu ao trono a ordem antiga foi restabelecida e Amon foi reabilitado. A mumificação do faraó menino serviu para enfatizar esse importante retorno à normalidade. Haveria uma intenção política na forma como o corpo foi preparado. A mensagem era clara: os antigos deuses voltaram apoiando e sorrindo para um Egito poderoso, produtivo e tradicional, simbolizado por Tutankhamon transformando-se em Osiris literal e míticamente após a morte. Acreditava-se que o rei era o deus Horus durante o reinado e se tornava Osiris quando morria. Assim, a transformação física de Tutankhamon após a morte reproduziria essa trajetória mítica. Leia mais sobre o pênis de Tutankhamon clicando aqui.

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AS TRÊS TATUAGENS Imagens infravermelhas captaram tatuagens em duas múmias do período pré-dinástico (c. 3350 a.C.). No braço direito de um homem há dois animais com chifres entrelaçados: provavelmente um touro selvagem com chifres elaborados e uma cauda longa, e uma ovelha com chifres curvos e ombros arqueados. (foto superior à direita). No ombro direito de uma mulher há quatro tatuagens em forma de "S" (foto do meio à direita). Abaixo delas existe um motivo linear similar a objetos cerimoniais que, às vezes, aparecem empunhados por figuras pintadas na cerâmica daquele período. Talvez essa linha represente um bastão torto, um símbolo de poder e status, ou um bastão usado em uma dança ritual (foto inferior à direita). As tatuagens não são superficiais, quem as fez aplicou um pigmento à base de carbono, provavelmente fuligem, na camada profunda da derme da pele. Não está claro o que tais tatuagens significam. Talvez fossem símbolos de força, marcas de caçadas bem-sucedidas, ou imagens protetoras.

KIT PARA TATUAGENS No túmulo de uma mulher também do período pré-dinástico, que deve ter falecido com idade entre 40 e 50 anos, foi encontrado um conjunto de ferramentas que poderiam ter sido usadas para executar tatuagens. Havia uma paleta em forma de pássaro, provavelmente destinada à moagem de minérios cosméticos, como o ocre, com o emprego de pedrinhas arredondadas, tudo acondicionado dentro de uma cesta. Ela também continha furadores de osso, os quais poderiam ter sido usados para furar a pele. A presença desses furadores como parte de um conjunto que inclui pigmentos, resinas, amuletos e incenso no túmulo de uma mulher mais velha sugere que a tatuagem estava nas mãos de especialistas e devia ser acompanhada de vários rituais e cerimônias.

TATUAGENS Em outra descoberta foram encontradas tatuagens no pescoço de uma múmia de Deir el-Medina, localidade da margem oeste do Nilo que esteve em atividade entre 1550 a.C. e 1080 a.C. Os desenhos mostram vários olhos Uedjat, um sinal associado a proteção. Além deles, que aparecem também nos ombros e nas costas, a mulher egípcia tatuou seu corpo com dúzias de símbolos diferentes. Existem flores de lótus, vacas com colares especiais associadas à deusa Hátor, cobras na parte superior do braço associadas a divindades femininas e outros que também podem estar ligados ao seu status religioso ou à sua prática ritual. São os únicos exemplos conhecidos de tatuagens encontradas em múmias egípcias que mostram imagens reconhecíveis, ao invés de desenhos abstratos. No pescoço, além do olho, há imagens adicionais conhecidas como símbolos Nefer, um sinal para beleza ou bondade. A combinação dos dois símbolos é interpretada como uma fórmula para a frase "fazer o bem". Colocados na garganta podem significar que sempre que a mulher falava ou cantava ela invocava um poder ritual para fazer o bem. Foto Ann Austin.

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A MESA DIGITALIZADORA Um museu de Estocolmo, capital da Suécia, colocou à disposição de seus visitantes uma mesa digitalizadora através da qual é possível desenrolar virtualmente uma múmia apenas com o toque dos dedos. Trata-se do corpo do sacerdote Neswaiu. Qualquer coisa dentro de cada camada, desde as bandagens até os ossos, pode ser girada, torcida e explorada em 3-D, incluindo o tato na experiência da visualização altamente interativa. A representação digital da múmia tem alto nível de detalhamento. Com gestos simples e alguns toques é possível explorar a múmia como um todo ou ampliar para ver detalhes, como marcas de escultura no sarcófago. Também se torna possível remover os invólucrosA CÓPIA DO AMULETO externos, desembrulhar a múmia e retirar camadas para revelar a anatomia e artefatos embrulhados com o corpo. Um amuleto de ouro em forma de falcão, inserido no meio das bandagens, foi reproduzido em latão banhado a ouro com o uso de uma impressora em 3D e os visitantes podem manusear esta cópia, cuja foto vemos ao lado.

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CRÂNIO COM ESPÁTULA Cientistas do Museu Britânico de Londres usaram tomografia computadorizada e sofisticados softwares de imagem, originalmente projetados para engenharia automobilística, para examinar além das bandagens de diversas múmias. O estudo revelou pele, ossos e órgãos internos preservados. Em um dos casos descobriram um instrumento destinado a extrair o cérebro deixado pelos embalsamadores dentro de um crânio e, ainda, restos da massa encefálica. o que mostra a ilustração ao lado. Foi uma revelação surpreendente para os egiptólogos porque as ferramentas usadas pelos embalsamadores são um assunto sobre o qual eles não têm muita informação. Encontrar uma delas dentro de uma múmia representou um enorme avanço. O corpo em questão é de um homen que morreu por volta de 600 a.C. e tinha abcessos dentários severos que poderiam tê-lo matado.

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A CARTONAGEM DO FETO Uma múmia que se julgava ser uma falsificação, acabou se revelando tratar-se da preservação de um feto com 12 a 16 semanas de desenvolvimento. A caixa, feita de cartonagem, tem 52 cm de comprimento e foi levada em 1971 para Swansea, uma cidade do Reino Unido. Pertencera ao farmacêutico, arqueólogo e colecionador Sir Henry Wellcome, sem que se saiba como ele a obteve. A peça está decorada no estilo da XXVI dinastia (664 a 525 a.C.). A idéia de que era falsa surgiu do fato das inscrições, pretensamente hieroglíficas, não fazerem sentido. Entretanto, através do uso das modernas tecnologias computadorizadas foi possível descobrir que o interior da caixa está preenchida com bandagens de linho no meio das quais existe uma área mais escura com cerca de 10 cm de comprimento que os pesquisadores identificaram como um feto em posiçãoO FETO fetal e com um saco placentário. O que poderia ser o fêmur do feto também foi identificado. Outro trecho escuro sugere a presença de um amuleto e há várias áreas com círculos negros parecidos com contas de um colar. Decorado com um padrão em formato de losango, talvez imitando a rede de contas colocada sobre algumas outras múmias, o estojo de cartonagem poderia fornecer algumas pistas sobre o sexo do bebê não nascido. O rosto está pintado de marrom avermelhado, cor geralmente associada aos homens. A pesada peruca listrada de amarelo e azul, bem como o largo colar são mais comuns nos caixões masculinos. Entretanto, como se trata de um feto cujo estado de conservação não é bom, não é possível ter certeza sobre o sexo da criança. A notável descoberta indica que mortes de crianças e abortos não eram tratados com indiferença. Com relação aos hieróglifos sem sentido, não era incomum que fossem colocados em caixões. Indubitavelmente, isso indicaria que o criador da peça não era alfabetizado.