O SENET E O LIVRO DOS MORTOS



JOGO SENET DE TUTANKHAMON No decorrer da XII dinastia (1991 a 1783 a.C.), o jogo senet foi associado com uma fórmula mágica dos Textos dos Sarcófagos. O ritual dessa fórmula permitia ao morto alcançar renascimento espiritual na vida após a morte pela mobilidade do seu ba, ou seja, permitia que o ba circulasse livremente entre o céu e a terra. No início da XVIII dinastia (c. 1550 a.C.), aquela fórmula foi refeita como Capítulo 17 do Livro dos Mortos e o senet passou a ser regularmente associado a ela. É dessa época o tabuleiro desse jogo que vemos ao lado, numa foto do Canadian Museum of Civilization Corporation, e que pertenceu ao faraó Tutankhamon (c. 1333 a 1323 a.C.). Na XIX dinastia (c. 1307 a 1196 a.C.) foram incluídas regularmente cenas do jogo entre as figuras do Capítulo 17. Essa foi a primeira ligação clara entre o jogo e um ritual durante o qual o senet era jogado. O propósito deste ritual era facilitar a passagem do ba do celebrante, estivesse ele vivo ou morto, ou seja, tanto os vivos quanto os mortos poderiam usar a fórmula mágica e realizar o ritual jogando senet e disso se beneficiarem. Concomitantemente ao aparecimento do senet no Livro dos Mortos, a decoração dos cinco últimos quadrados do tabuleiro do jogo evoluiu de desenhos puramente seculares, tais como números e marcas de direção, para símbolos religiosos relacionados ao processo de ressurreição espiritual e renovação da vida após a morte.

Durante a noite o deus Rá viajava em seu barco noturno por 12 horas no mundo subterrâneo dos mortos. Ele lhes levava luz e oferendas. Lutava contra o caos e resurgia em todo o amanhecer. Ali também os falecidos eram julgados por um tribunal presidido por Osíris. Quem tivesse cometido pecados em vida teria sua alma aniquilada. Os inocentes dali sairiam unindo-se ao deus-Sol e alcançando vida eterna como o próprio deus. Os detalhes da misteriosa jornada no além-túmulo foram gravados nas paredes das tumbas egípcias como guias de viagem, mapas e símbolos mágicos para protegerem o proprietário do túmulo na morte. Os egípcios acabaram associando ao ritual do senet a noção da viagem subterrânea. O cerimonial de jogar senet recriava para o jogador a passagem pelo mundo subterraneo. Por meio dele, o jogador ficaria apto a efetuar uma viagem bem sucedida pelo além-túmulo e alcançaria renovação espiritual e união com Ra, neste mundo e no outro. Para o morto tratava-se de um ato mágico para se proteger na viagem e se assegurar da ressureição pela identificação com Rá. Para quem estivesse vivo, provavelmente o ritual poderia ser executado preventivamente garantindo uma passagem segura depois da morte. Os vivos também poderiam executá-lo para experimentar a viagem do além sem ter que morrer primeiro e unir-se com Ra enquanto ainda vivos, alcançando uma apoteose viva com a divindade. É bem provável que os egípcios tenham incorporado aquele ritual nos ritos misteriosos de iniciação dos sacerdotes, uma vez que os ritos de iniciação também incluiam alguma forma da viagem no além para o iniciado, na busca de uni-lo, ainda que temporariamente, ao divino.

O exemplo mais antigo da recitação deste ritual de jogo que chegou até nós encontra-se em um texto hieroglífico da XX dinastia (c. 1196 a 1070 a.C.). Ele descreve a passagem do jogador pelo tabuleiro de senet como se fosse a viagem do defunto pelo mundo subterrâneo, sua justificação e sua deificação no final. O texto apresenta tabuleiros de senet especiais nos quais todos os 30 quadrados mostram desenhos religiosos. Ali aparecem deidades egípcias e conceitos da religião, os quais são mencionados em detalhes no texto. A evidência indica que estes tabuleiros completamente decorados destinavam-se, especificamente, ao uso no ritual do jogo de senet, embora, talvez, também pudessem ser usados em qualquer jogo recreativo normal.

Peter A. Piccione, egiptólogo e professor da Universidade de Charleston, nos Estados Unidos, nos conta que, de acordo com os textos e ilustrações existentes sobre esse tema, o ritual do jogo do senet deveria ser executado, de preferência, dentro ou próximo do túmulo. Isso porque os egípcios acreditavam que a linha entre a vida e a morte era bastante tênue e que o morto e os vivos poderiam se comunicar entre si, especialmente na tumba. Os egípcios escreviam cartas aos parentes mortos e as deixavam nos túmulos para que o defunto lesse. As respostas eram esperadas em sonhos. Às vezes dormiam dentro das tumbas, na esperança de que o morto falasse com eles ali. O jogo de senet aparentemente teve uma função semelhante, embora os detalhes sejam desconhecidos. Vários tabuleiros do jogo foram achados dentro e ao redor de tumbas, onde eram esculpidos como grafitos no chão e, certamente, eram jogados pelos visitantes dos túmulos. Como exemplo pode ser citada uma tumba na cidade de Beni Hasan. Nela um tabuleiro de senet foi esculpido muito próximo de um relevo na parede que mostra uma cena do jogo. Tudo leva a crer que ele pode ter sido usado pelos visitantes para uma pretendida comunicação com o morto, ou para realizar alguma espécie de ritual com o jogo.

Em resumo, jogar senet possibilitava o contato entre os vivos e os mortos e facilitava a passagem do ba e sua habilidade para se locomover entre os reinos dos vivos e dos mortos sem obstáculos. Dependendo das circunstâncias nas quais o ritual acontecia e seu objetivo, os participantes poderiam variar. Para propósitos de comunicação e para promover a mobilidade do próprio ba, os vivos jogavam com o ba de um morto ou com seu próprio ba vivo. Porém, para o propósito específico de facilitar a passagem pelo mundo subterrãneo para efetivar a união com Ra, o oponente no ritual de senet era encarado como o próprio deus-Sol, ou como um inimigo espiritual sem nome assimilado aos inimigos de Rá e que era eventualmente destruído no final do jogo.

Concluindo seu estudo sobre esse assunto, Peter Piccione afirma: O uso religioso do jogo de senet reflete as noções egípcias sobre a unidade da atividade recreativa e dos rituais religiosos. Na mente egípcia, não havia nenhuma distinção clara entre estas duas noções, o sagrado e o profano. Acontecimentos como eventos esportivos, competições e jogos tiveram papel significativo nas atividades rituais públicas no Egito antigo. Os egípcios organizaram regularmente eventos esportivos e jogos como parte de celebrações religiosas sérias e festivais de adoração, sem diminuir qualquer significado espiritual ou a excitação associada ao atletismo e aos jogos. Portanto, não é surpreendente que, como meio de recreação, o senet pudesse facilitar a recriação e a renovação espiritual.



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